É Elena,
É outro Cazuza você.
A poesia nos contorna
E só sobra cabeça sobre água
Corpo sob água
E força estranha no ar
Comprei jade pro peito
Depois de clarear toda a água desse coração
Ele me apertou pra me limpar
Ele sempre me limpando
É mais que terapeuta, é anjo
Era choro dolorido do peito
Daqueles que minhas paredes estão acostumadas
Daqueles que meus corpos já viram tantas e tantas
E com choro vinha
Aquela culpa, papai
Pai, vamos nos limpar
Em nós não cabem mais disputas
Esse passado que nem sei o que
Nos embriaga de ignorância
Me embriada de ignorância
Te embriaga de esconderijo da omissão
Mas tá aqui, pai
Vem pra esse pequeno corpo
Aquele seu choro na lavanderia
E meus onze anos de pura dança vaidosa
Te doía, me doía
Eu puxei a corda da família
E a todos desestabilizei
Como se a mim não bastasse a corda bamba
Mãe, eu sinto saudades, mãe
Mãe, eu amo amo amo amo muito você
Era assim que te dizia
Na saída pra escolinha
Ou na saída do dia
Na ida pra noite
As noites que fingia dormir
As noites que já fazia meu papel de Paguê
Esse papel perdurou, mãe
De você eu digo a falta de amor
Pra não dizer a inveja
Eu me desculparia pela sua inveja
Nossa vaidade é grande demais
Por isso combatem tanto
A sua é vaidade tímida, a minha expande e me mostra por aí
Mas somos tão medíocres quanto
Ô irmãzinha, teus olhos são tesouro
Você ainda será Petra minha
Seu cheirinho e todo seu jeitinho
Você é sabedoria divina, menininha
Só não sabe ainda onde foi que o divino se escondeu em você
Porque fora de você ele não ousa estar
E desse mesmo choro,
Vi todo esse meu medo
Medo de você não mais me querer
Medo de outro você não mais me falar
Medo de outro eu não ser centro
Medo de não receber amor
Ah quanta necessidade
Ah quanta sede
Ah quanta carência
Quanto ser amada precisa você
Continua me apertando
Que engato esse choro
Num riso de gargalhar e limpar
Era riso daquele passado
Riso daquela criança
Ah, vamos deixar lá essa criança que há tanto em mim
Essa criança agora vai ser amparada
Essa criança cheia de família
E cheia, cheia, cheia de solidão
Esse criança, essa mulher, esse ser de solidão
Mas é ser sozinha o ser caminho da luz
E se dói, Platão já um dia nos avisou
Mas compro Jade pro peito
É leão, dragão, sapo e cão
Unidos num só bicho
Que se agarra em mim
Purificando toda a dor desse peito
Dessa garganta
Desse expressão
Calma, menina
Calma...
Você é nova.
É assim que te dizem.
E essa menininha aí que é mulher em você
Essa mulher que é menininha em você
É só você
Mas é você num amplo círculo
Você boiando em arte
Sendo arte
Vidarte
É o que vai te movendo
Toda essa força estranha
E pra menos sozinha sentir-se
Para e escreve
Escreve
Vai, escreve muito
Já que é só você quem vai escutar suas letras
E é só você quem não vai te abandonar
Vem aqui menina, é você quem te ama
É a mesma
A mesma menina sozinha bailando no sul
Aquela que chorava de saudades
É essa mesma que dança agora pelas ruas
Que se movimenta inventando textos
E brincando de relação com o mundo
Essa que usa corpo pra existir
E usa existência pra ser corpo
Então pode chorar
Mas não se perca num sofrimento
Já basta toda sua dor que precisa ser acalentada
O cuidar ainda soa
Olha esse sol do teu peito
E canta com o sagrado da natureza
E dança com Deus
Ou com céu, sol, lua e mar
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