domingo, 3 de março de 2013

Alvorecer

É nessa madrugada que me despeço de minha única companhia,
eu mesma e meu silêncio barulhento.
Às cinco da manhã abro a janela
e finjo me esconder atrás das cortinas.
Quero ver o dia nascendo
o dia que será ponto final em minha moradia tão só minha.
Logo outra cama chega e compartilharei minhas transformações.

Vejo um encontro de taxistas quando meus ouvidos encontram a manhã.

Nessa mesma madrugada meu banho foi sustentado por vibrações indecifráveis.
Meus olhos pregam os poucos movimentos da rua.

Li, numa flor do dia, que meu medo um dia seguirá ao céu

Nessa mesma madrugada meu peito não se calou quando a respiração pousou.
Senti o peso da minha inquietação.
Senti o barulho de minha calma que se esconde em algum futuro.

Meus sentidos não param.

Meu corpo não conhece o que é silêncio.
Minha existência ainda só soube falar, falar, falar.

Sou atraída por ali, por lá, por cá.
Meus sentidos me fazem correr em círculos viciosos da ilusão.

Só sei que te amo, sabiá, ainda te amo.
Sei do silêncio apenas teu e da saudade que colore minhas palavras.
Cor que não se sustenta se não na esperança de um amor que seja tela.

Uma leve luz vem apontando atrás da Santa Casa.
Meus olhos em alerta se conectam com os motoqueiros brutos.

Meu cheiro se pergunta onde foi que encontrei tanta solidão.
Só eu sei dessa caminhada trilhada a pé.
Ou dessa corrida que nunca soube respirar.

É como se agora nada mais existisse,
apenas meu barulho interno e um posto de gasolina abastecendo táxis.

As férias terminam, meu lar único também.
Vem chegando o domingo que deixará para trás os meses que a luz me chamou
e passei a correr ao seu encontro.

O escuro vai nos deixando.
Enquanto o céu clareia ali, meu medo se esconde em outro canto daqui.
Talvez nos dedos dos pés torcidos no chão, como se lembrassem das tantas sapatilhas carcereiras
ou nos dedos das mãos que batem em botões parteiros de palavras deste verso aqui.

Como divertimento de meu descontentamento,
brinco de fazer promessas
e o poema só cessa com a luz total do dia.

Mas de escassez de necessidade, não se nasce poesia.
E antes da luz total que via, quis interromper esse mel de cada dia.

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