quinta-feira, 6 de junho de 2013

Espuma sólida

Era madrugada de ida pra segunda-feira quando ele chegou.
Ele já cansado de filmar,
ela já dormindo a espera acordando por e para ele.
Também para seu prazer.
Também para ver amor, sentir amor.

Ele foi ao banheiro.
Ela acendeu velas, uma rosa,
outra azul,
como se quisesse brincar
de encontro de menina e menino,
ou encontro de amor e fé.

Um tempo fitando uma chama, depois outra.
Derramando cera azul
como se vela chorasse para poder se colar,
se firmar, se ficar.
Duas chamas que de tão belas pediam união.
Chamas se chamando.
E ele no banheiro.
O tempo da vela envolvendo o olho dela.
Dois fogos cobrindo-se,
fazendo-se um,
antes atritavam,
tremiam,
num sutil passo do ar,
se comiam
e passavam a ser fogo de uma chama só.
Vela rosa começou a chorar em vela azul,
como se nele gozasse,
ou apenas lagrimasse amor assim.

Ele volta.
Ela diz estar brincando de sexo com as velas.
Fez-se transa de fogo.
Ele diz querer sexo com ele.
E fazem sexo bonito
que até mamãe acharia belo ver.
Como fogos sendo um,
eles se fazem um
com seus pés,
pau,
cu,
boceta,
bocas,
e tanta pele
que se entram um no outro
até vela desmanchar na manhã.

Vela azul foi-se e acabou.
Rosa ainda restou.
Ela também restou noutro dia naquele quarto.
Fazendo companhia pra vela rosa,
sendo companhia pra ela mesma.
Reacendeu o rosa.
E aquela vela mais que chorava,
derretia,
se derretia
e era derretida.
Fazia-se espuma sólida colada no tempo.
Gozo parando no tempo.
Resquícios do sexo.
E sabem ficar assim,
as duas,
ela e a vela.
Sabem ficar com restos de sexo no corpo,
fazendo espuma rosa no pensamento.

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