terça-feira, 23 de outubro de 2012

cimentágua


Lhasa dança com lágrimas em meus pulsos
Alcanço Pina com a ponta dos dedos dos pés
Meus pés cimentados por onde não passam ilusões
Por onde o que vibra é somente o desejo
Ali só cabe a iminência
O tremor das pregas vocais não mais produz sons
Qualquer som é empredrado nas minhas lágrimas moles
Em cortes de pedreiro, meu peito é cada vez mais acorrentado
Sou maior que meu corpo
A adoração ao corpo é também o aprisionameto do corpo
Eu tento
Mas eu só tento
A epiderme de pedra das minhas tibias faz pontiagudos cortes na minha alma
Eu não caibo em mim

O aprisionamento do cimento
Então viro a especulação imobiliária
Então viro dinheiro
Então toda a minha potência de vida passa a ser apenas dinheiro
E o meu amor fica no grito que não consegue sair de mim

Minhas vontades endurecem como cimento em mim

Quantas demolições serão necessárias para eu existir?

Quantos desconstrutores de cimento serão necessários para eu me mover?

Quantos banhos serão necessários para que me deixem ser?


Água

Apenas água

Apenas me afogar na liberdade

Apenas me aprisionar na liberdade
Enquanto minha alma ainda é pedra

Então me afogo em água de pedra, em pedra de água
Então sou misturas
Misturas da minha dança que me mata

Até ali vou querer apenas seus olhos
Até ali ainda minhas lágrimas serão maiores que qualquer cimento

Me traga olhos molhados para que eu amoleça qualquer pedra

Nenhum comentário:

Postar um comentário